"Até que o sol não brilhe, acendamos uma vela na escuridão." Confúcio
Estávamos caídos olhando para cima. O céu era escuro e chovia bastante. Fiquei tranquilo ao vê-la do meu lado, olhando para cima também. Molhados até os ossos naquela grama rala e chão lamoso, pensei como tudo aconteceu tão rápido. Lembro-me que após conseguirmos a minha lembrança no alto da Montanha Mágica Imaginativa fomos surpreendidos por milhares de Zé Gotinhas Azuis Derrubados.
Agora, estamos nesse mundo escuro e chuvoso e eu não tenho a menor idéia de onde viemos parar após Bulba abrir uma porta com sua Chave Mágica. Pelo semblante que a Criadora de Mundos trazia, conclui: assim, como eu, era sua primeira passagem por um portal dimensional, ou algo muito parecido com um. Quem iria imaginar a existência de uma Porta Surpreendentemente Conectadora de Mundos bem ali na nossa fuga? É certo que fugíamos desesperadamente dos nossos perseguidores azuis, e não sabíamos qual direção seguir. Apenas vimos na nossa frente uma porta enorme, e como se fosse para ser assim, Bulba guiou a chave até a fechadura abrindo-a. De imediato pensei que finalmente havíamos encontrado o mundo das fadas que ela tanto procurava!
Nunca estive tão enganado.
A chuva continuava a nos molhar, o cabelo de Bulba escorria pelo seu rosto. Seu ar de preocupação me preocupava também. Talvez fosse difícil para ela estar num mundo que não foi criado pelas suas próprias mãos. Apesar de estarmos perdidos, deixamos o medo nos guiar para longe dali, daquela chuva, daquele lugar.
Já calmos com nossa situação de perdidos à deriva, decidimos procurar por um local seco. O que de fato era impossível no momento, entretanto, apesar da nossa situação, eu adquiria uma aconchegante confiança, pois além de estar em companhia da Criadora de Mundos, somente ela possuía a chave para nos levar de volta para nosso lar. Sou sincero, era apenas isso que me confortava um pouco. De nós dois, somente ela tinha capacidade de girar uma Chave Mágica numa Porta Mágica. É triste, mas uma pessoa sem Coração como eu, está destinado a ficar trancado em mundo só.
Foi quando eu direcionei meu olhar para dizer algo a ela, que me surpreendi com o seu olhar sério, e ao mesmo tempo surpreso, olhando para algo, bem longe dali.
- O que foi? Falei.
- Nada... Devo estar vendo coisas. Tive a ligeira impressão de ter visto borboletas. Deixa para lá... E agora? O que faremos?! Ela gritou toda encharcada, em desespero.
- Você que maneja a chave! Leve a gente de volta para casa! Gritei mais desesperado ainda.
- Marmo, não sei como nos levar de volta, nem sei os detalhes de como isso aconteceu... Eu apenas vi a porta e coloquei a chave na fechadura e girei... Droga! Pare de gritar comigo!
- Como é? Você não sabe manejar uma simples chave?
- Estás vendo alguma porta por aqui? Quando avistares, avisa-me para assim eu girá-la bem na sua fuça, babaca. Não é tão simples assim, como pensas Marmo. Quando se está de posse com uma Chave Mágica, qualquer coisa pode acontecer. Uma porta se transforma num portal, Zé gotinhas aparecem do nada, tudo depende da situação e do estado de espírito do possuidor da chave.